"Que país é
esse?"
Nos EUA, cerca de 40
estados-federados escolhem, pelo voto, os seus magistrados e os
seus promotores de justiça.
Os juízes federais e os
procuradores federais norte-americanos são escolhidos pelo
presidente da República e entram na função depois de aprovação
pelo Senado. Idem com relação aos procuradores.
O sistema tem a lógica democrática,
pois o juiz é órgão do poder, cujo detentor é o povo. O sistema
europeu, que me parece melhor, mistura magistrados concursados
publicamente e jurados leigos.
No Brasil, os juízes são
concursados, exceção aos que ingressam pelo chamado
quinto-constitucional (advogados de notório saber e reputação
ilibada e membros do Ministério Público), os escolhidos para o
cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e os
participantes do Tribunal do Júri, que julgam apenas os crimes
dolosos contra a vida.
Mas uma coisa é certa e
incontestável. Qualquer que seja o sistema — americano,
europeu ou brasileiro —, um juiz, ao julgar ou dar liminares,
atua como representante do povo.
Ontem, um espetáculo grotesco e
inusitado foi protagonizado pelo Judiciário no chamado bairro do
Pinheirinho. A juíza que concedeu reintegração —
precipitadamente, pois não exauriu a via conciliatória nem
exigiu dos poderes públicos uma responsável solução para alojar os
despojados de suas residências — recebeu, no local e
solenemente, o mandado cumprido pela tropa de choque da Polícia
Militar.
Essa conduta é inusitada no
Judiciário. Como regra, os mandados judiciais cumpridos são
comunicados por ofício protocolado no Fórum. E os juízes os recebem
pela mão do escrivão ou juntados em autos processuais.
Faltou, lógico, um fundo musical.
Com a banda Legião Urbana a perguntar: Que país é esse ?
Sim, que país é esse que a
Justiça, que decide em nome do cidadão, joga o povo ao léu.
Com efeito. Ontem foi concluída a
reintegração na posse, determinada por ordem judicial da 6ª Vara da
comarca de São José dos Campos, no chamado bairro
Pinheirinho, com 1,3 milhão de metros quadrados de área ocupada por
cerca 6 mil moradores desde 2004.
A reintegração deu-se em favor da
massa falida da Selecta Comércio e Indústria S/A, uma holding
administrada, até a quebra em 2004, pelo megaespeculador Naji
Nahas.
Naji Nahas jamais foi condenado
pela Justiça brasileira. A propósito de alguns escândalos
noticiados pela imprensa, Nahas não foi responsabilizado
criminalmente quando acusado de quase quebrar a Bolsa de Valores do
Rio de Janeiro. Preso preventivamente, beneficiou-se da liminar
concedida pelo ministro Gilmar Mendes em favor do banqueiro Daniel
Dantas. E também da decisão, ainda não definitiva, do
Superior Tribunal de Justiça (STJ) que anulou a Operação
Satiagraha: uma anulação fundada na canhestra conclusão
da participação, ainda que burocrática, de agentes da Agência
Brasileira de Inteligência (Abin). Contra essa decisão anulatória
votaram os ministros Gilson Dipp e Laurita Vaz.
Com a reintegração de posse
concluída, restará prejudicado, pela perda de objetivo, o pedido
feito ao Supremo Tribunal Federal (STF) de suspensão da
operação militar conduzida pela tropa de choque da Polícia Militar
de São Paulo e com cerca de 1.500 famílias sem ter onde ir.
Mais ainda, a liminar foi indeferida pelo presidente Peluso, do
STF.
Como se nota, não houve tempo
oportuno para ser apreciado, em sede liminar e pelo STF, o pedido
de suspensão da reintegração. Em São Paulo, a decisão foi mantida e
o ministro presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ)
— já acusado de assédio moral a estagiário e de fazer
lobby para garantir uma cadeira no STJ para a sua cunhada
— entendeu não ser da Justiça federal a competência para
suspender a reintegração. Essa decisão de Ari Pargendler foi dada
liminarmente, quando a Polícia Militar desalojava, com bombas,
balas de borrachas e cães, os moradores do Pinheirinho.
Juntamente com a ação da Polícia
Militar, máquinas cuidaram da derrubada de casas de alvenaria e de
madeira que abrigaram os antigos moradores e residentes há mais de
8 anos na área.
Num grotesco espetáculo mostrado
pelas televisões, a juíza responsável pela decisão de reintegração
compareceu ao Pinheirinho para receber, solenemente, a notícia do
cumprimento do mandado judicial.
Agora a área esta pronta para ser
vendida e a sobra vai para o bolso dos sócios da Selecta, ou
seja, de Naji Nahas. Os créditos trabalhistas, que podem já ter
sido negociados por valor irrisódio, serão quitados. Idem os
especiais, que vão para os cofres da Prefeitura de São José dos
Campos.
O prefeito de São José dos Campos,
cuja insensibilidade chegou a ponto de não se preocupar em alojar
as famílias tiradas violentamentemente do Pinheirinho, vai ter um
bom caixa para promover o populismo. Enquanto isso, com o ritmo de
“lesma reumática”, o governador Geraldo Alckmin afirma
que cuidará de verbas para a locação de casas aos expulsos do
Pinheirinho, pois não existem casas populares disponíveis. Os
radicais do PSTU, que apostavam numa tragédia maior, certamente
contabilizam futuros ganhos eleitorais.
Pano rápido. “QUE PAÍS É ESSE
?”
Wálter Fanganiello Maierovitch (Sem
Fronteiras)